O que é o método de treinamento de Oclusão Vascular?

Oclusão vascular é um termo incorreto, pois o que temos, na verdade, é uma restrição do fluxo sanguíneo, porém, por força do uso nas mídias, irei manter a nomenclatura tradicional.
O método da oclusão foi desenvolvido, bastante por acaso, nos anos 60, por yoshiaki sato, um japonês fisiculturista. Obtendo algum sucesso em hipertrofia com ele, o autor começou a divulgá-lo nos anos 70, ministrando palestras e cursos e, nos anos 80, fechadas algumas parcerias, o método começou a ser investigado cientificamente em laboratórios de fisiologia, a fim de entenderem seus mecanismos, coisa que dura até os dias de hoje, pois muitas perguntas ainda não têm respostas…
Ele trabalha com a ideia de restrição de retorno venoso e diminuição do fluxo arterial. Para quem não sabe, as artérias são vasos que servem de passagem de sangue que sai do coração, enquanto as veias, para o que chega nesse órgão. Sendo assim, com a utilização de um manguito (garrote ou torniquete), o sangue é acumulado num membro que está sendo treinado, concentrando substâncias em nossos vasos, como adp, hormônios (feito gh e testosterona), lactato e íons hidrogênio, por exemplo, causando um stress metabólico.
Dependendo da pressão utilizada no manguito, estes produtos citados irão se acumular em maior ou menor quantidade. Além disso, se juntarmos isto à questão da pressão e da acidez, acabamos entendendo o porquê de o método gerar tanta dor no local, ficando às vezes impossível fazer muitas repetições.
Por questões de segurança, a indicação de pressão a ser aplicada é de 100 a 300mmhg (lê-se milímetros de mercúrio), sobretudo pelos efeitos colaterais que o método gera durante a sessão de treino, ou mesmo no longo prazo, que até hoje não sabemos todos.

Os problemas do método da Oclusão Vascular
O maior problema, em minha opinião, é a falta de informação/embasamento científico, seja de quem se propõe a utilizar o método, seja de quem quer divulgar. Por ignorância, as pessoas irão se expor desnecessariamente a riscos, auxiliando muito mais a mídia sensacionalista do que a si mesmo…
Foi justamente por falta de informação, usando o método na tentativa e erro, que o próprio autor foi hospitalizado quando estava experimentando sua descoberta, uma vez que abusou da pressão no manguito (700mmhg).
Outro gravíssimo problema frequente é que as pessoas que se aventuram no método, em sua maioria, não possuem um manguito adequado, com relógio de pressão, utilizando materiais quaisquer, como elásticos, faixas, cordas, etc., acabando por não medir qual pressão estão usando, se é a mesma dos dois lados do corpo ou mesmo tendo um controle adequado para fazer uma progressão.
Em relação aos colaterais, pelo o que foi estudado até o momento, podemos citar o trabalho dos pesquisadores nakajima et al., 2006: 13% dos praticantes apresentam hemorragia subcutânea, que gera hematomas e some com o tempo (prejuízo apenas estético). Além disso, também são comumente relatados problemas como dor extrema, dormência, coceira, sensação de frio e, de forma mais rara, danos cardiovasculares, feito pressão alta, arritmias e isquemia.
Para encerrarmos, a maior dúvida dos pesquisadores é o que pode acontecer com o coração do sujeito no longo prazo, principalmente se o método pode gerar algum tipo de hipertrofia cardíaca prejudicial, por esses aumentos de pressão, como acontece em hipertensos e usuários de anabolizantes. Sendo assim, muito ainda precisa ser estudado.

Quais benefícios foram observados sobre a Oclusão Vascular?
A grande vantagem do treino de oclusão é que ele proporciona ganhos em hipertrofia e força, porém, com a utilização de uma carga muito baixa. Segundo vários trabalhos que li, com apenas 20% de 1rm, ou seja, com 20% do máximo de peso que aguentamos para fazer uma única repetição, conseguimos obter os mesmo resultados em hipertrofia e força de alguém que usa 80% e treina da forma tradicional (sem manguito).
Também foi observado que não adianta subir a carga para 30-50% de 1rm, pois os resultados continuam sendo o mesmo dos 20% e tudo o que o sujeito aumentará será a dor causada pela restrição de fluxo sanguíneo, que ficará tão grande que inviabilizará a continuidade de repetições.
Ocorre que, com pesos extremamente leves, acabamos recrutando mais fibras do tipo-i do que as do tipo-ii, que são as que têm maior potencial de hipertrofia e força. Porém, pela falta de substratos por conta do manguito, como oxigênio, por exemplo, as fibras tipo-i fadigam rapidamente e as do tipo-ii, que não seriam recrutadas em situações normais com cargas leves, acabam tendo que participar para manter a contração muscular, sendo este um dos grandes segredos do método.
Com isto, percebemos que o treinamento de oclusão é uma importante ferramenta para gerar hipertrofia e ganhos de força em pessoas debilitadas, como idosos, pacientes avançados com câncer, sujeitos lesionados, amputados, com fraturas ósseas ou pós-operados, por exemplo. Em indivíduos saudáveis ele também seria interessante para uma fase de deload, um descanso ativo, overtraining, entre outros.
O grande problema aqui é que as pessoas, por falta de informação ou de aconselhamento adequado, confundem o método como um acessório para aumentar a hipertrofia de um programa, feito um esteróide, e mantêm as mesmas cargas de treino e tentam fazer garrotes cada vez mais apertados, sem nenhum tipo de medição, na tentativa de ganhar mais massa e força, o que é bastante irresponsável.

Considerações finais e conclusão
Conhecemos o método da oclusão vascular, discutindo sua história, metodologia, benefícios e malefícios, tudo com embasamento científico.
Para alguns grupos de indivíduos o método não tem grandes vantagens, sendo seu uso uma ilusão, com o agravante de poder proporcionar efeitos colaterais; para outros sujeitos, por sua vez, ele pode se mostrar não só extremamente benéfico, como talvez a única solução para trazer algum tipo de qualidade de vida.
Digo isto, pois fui aluno na graduação de alguns pesquisadores diretamente envolvidos com o estudo do método da oclusão no brasil, no laboratório da universidade de são paulo no hospital das clínicas, e pelos dados que eles apresentavam em congressos, foi bastante interessante ver pessoas que estavam com a musculatura das pernas extremamente atrofiadas, que nem aguentavam mais o próprio peso, voltarem a andar, o que vejo como o maior benefício de todos desta descoberta.
Ficamos por aqui! Espero ter ajudado um bocado com este artigo no desenvolvimento do senso crítico de vocês e também tirado dúvidas sobre o método da oclusão vascular! Não se deixem orientar por amadores e aventureiros: aceitem apenas informações de profissionais altamente qualificados e atualizados, que sabem do que estão falando, pois estudam constantemente, conhecem a prática de trabalho e se baseiam em ciência, e não em achismos, lendas e tradições.
Não utilizem o método sem a supervisão de um profissional capacitado e, muito menos, sem controlar a pressão de forma adequada.